Março de 2006 - Janeiro de 2009

28
Mai 08

É um pouco inexplicável como em dois anos de crónicas semanais nunca abordei a temática da mais importante instituição portuguesa. Prometo desde já que brevemente voltarei a tocar neste assunto pois a situação assim o exige. Mas de momento comecemos por ver aquilo que é realmente ser benfiquista.

É certo e sabido que só existem dois clubes de futebol em Portugal. Os que são do Benfica e os que são contra o Benfica.
Os contra-benfiquistas podem ser tão ou mais dedicados, fiéis ou leais ao seu clube. Mas jamais serão tão doentes, desequilibrados e maníacos como um benfiquista. É que ser do Benfica é completamente diferente de ser de outro clube qualquer.
No que diz respeito a criticas, ninguém diz tão mal do Glorioso como um lampião. Numa conversa de café, um contra-benfiquista não tem tempo para poder sequer colocar uma mísera critica ao que quer que seja. O benfiquista já o fez por ele mas de uma forma vinte vezes maior.
Gritar como quem acaba perder um filho “Aqueles filhos da puta não jogam um caralho!” é um sinal impar de devoção ao clube das águias.
A personificação desta relação de amor/ódio é o Nuno Gomes. Creio que se fala pouco do Nuno Gomes. Foram criados novos palavrões, alcunhas e mimos variados para adjectivar o vinte e um do Benfica. No entanto, fica sempre um sinal de simpatia sempre que ele marca um golo. De um chorrilho de insultos a “Ah ganda Nuno Gomes. És o maior. Beija o anel. Tufa, mais um golo. Este homem é uma máquina.”.
Ser adepto do Benfica implica sempre um desequilíbrio permanente. É viver num limbo entre o passado glorioso e o decrépito presente. Viver com a fé inabalável que para o ano seremos campeões europeus e acreditar, com a mesma devoção e ao mesmo tempo, que não temos equipa para ganhar a Taça da Liga sequer.
Apoiar o emblema das águias não pode ser feito de um forma racional e sustentada. Numa semana aplaude-se de pé na Catedral completamente lotada, noutra aguarda-se pacientemente à porta do centro de estágios com uma pedra escolhida criteriosamente de modo a poder infligir o maior dano possível ao autocarro que transporta os jogadores.
Outro exemplo da corrente de emoções associada a este clube. Todas as semanas o jogo da jornada é o jogo em que entra o Benfica. Pouco importa a classificação geral, o desfecho do campeonato ou outro tipo de rivalidades. O único derby em Portugal é o jogo com o Benfica.
Pois mesmo que os benfiquistas estejam de costas voltadas para o seu equipe, os contra-benfiquistas fazem questão de elevar novamente o estandarte vermelho bem alto para que toda a gente ouça. Seja a dizer bem ou mal só há referência a um clube.
Um jornal desportivo não vende mais de meia dúzia de cópias se não tiver uma manchete em berrantes letras vermelhas. Não interessa o que raio lá vem. Nunca interessou. O que interessa é que se fale no Benfica. Pois o Benfica é e será sempre o maior clube português.
publicado por Velho Jarreta às 00:02

21
Mai 08

Toda a gente se queixa de tudo hoje em dia. Eu sei que faz parte do código genético lusitano a constante lamuria mas não é preciso abusar.

Ou é porque chove ou é porque está sol. Se está frio devia estar calor, se está calor devia estar frio. Ou é a situação económica que está cada vez pior ou é porque o Sócrates fumou um cigarro. Ou porque sim ou porque não, todos temos um rol de razões de queixa.
Realmente este mundo está completamente fodido. Mas não é d’hoje. O mundo já está fodido à muito tempo. Mas já alguém pensou que possamos viver numa era em que temos maior qualidade de vida do que alguma vez sonhámos?
Decerto que é melhor estar vivo hoje em dia do que na Idade Média. Ai sim, ai teria razões para me queixar. Já alguém imaginou o que seria viver, nem que fosse só por um dia, em plena Europa medieval? Se não, venham comigo.
Logo ao acordar tínhamos a certeza que o dia não ia correr nada bem. Levantávamo-nos de um monte de palha repleto de toda a espécie de bicheza. Deitados ao lado de mais dez pessoas e de uma vaca que gentilmente nos cedia o leite para o pequeno-almoço enquanto largava mais uma bosta de tamanho considerável. Que, diga-se de passagem, também não fazia diferença. De qualquer forma já estávamos coberto de merda. Não se tomava banho, não haviam esgotos e casa de banho era como o telefone, ainda estava para ser inventada.
Neste lindo estado, saíamos de casa. Passávamos pelo tribunal do Santo Oficio para denunciar um vizinho, de praticas homossexuais só porque embirramos com ele porque estaciona sempre a carroça à nossa porta, e descíamos até à Baixa.
Como não havia bola, íamos até ao Terreiro do Paço assistir à queima das bruxas. Mandar umas pedras ao infiéis, incitar à morte por estrangulamento. Enfim, o costume.
Como não havia médico de família, íamos até ao curandeiro para nos livrar da peste negra. Duas horas de missa depois estávamos finos e íamos almoçar.
Chegados ao tasco começava a degustação. Uma malga de sopa que fazia parecer o bebedor dos cavalos um manjar dos deuses e uma côdea de pão bolorento. Tudo isto acompanhado com uma garrafa de bagaço para ganhar força para a labuta diária.
Fosse qual fosse a vossa profissão, posso garantir que em nada se compara à vossa actual ocupação diária. Ao não ser que se chamem Yuri e que tenham vindo recentemente da Ucrânia.
Para quebrar a rotina chegava o Verão. Em vez de ir de férias para Porto de Galinhas íamos numa digressão com os Templários. Partindo de Tomar às sete da manhã para chegar a Jerusalém pelas oito da noite uns meses depois. Com o extra de ir pilhando e violando tudo aquilo que nos aparecesse pela frente.
Como vêem os dias de hoje parecem bem mais agradáveis. E se não estamos satisfeitos com isso vamos sempre a tempo de mudar. Naquele tempo foi a enfiarem-se numas cascas de noz, a que alguém chamou caravelas, e procurar um mundo melhor. Hoje em dia, só tu podes descobrir qual a tua caravela e qual o mundo que queres atingir, isto claro, se tiveres coragem para isso.
publicado por Velho Jarreta às 00:54

14
Mai 08

 

Mas que raio de moda é esta dos austríacos trancarem pessoas em caves? O que é que vem a seguir, os suíços utilizarem as suas famosas aguas furtadas como prisões domiciliárias?

Eu não quero alarmar ninguém mas o Euro está aí à porta. E embora eles pareçam muito calminhos, olhem que lá no fundo são bem manhosos. Se tratam os familiares da maneira que todos nós vimos imaginem o que podem fazer com vocês.
Se têm intenções de se deslocarem até aquelas paragens, para verem um qualquer jogo ou simplesmente para desfrutar de umas agradáveis férias, eu aconselho-vos a tomarem uma serie de precauções.
Primeiro que tudo, desconfiem sempre da hospitalidade centro-europeia. Não há região no mundo que tenha casas de aspecto tão acolhedor e digo-vos já que não é por acaso. A arquitectura daquela região é própria para prender a atenção dos turistas. Tal como as plantas carnívoras de bela folhagem e aroma atraem os insectos, também as casas daquela região dispõe da sua camuflagem. Com o seu aspecto limpo, bem decoradas com canteiros de flores e um jardim cuidado, não passam de armadilhas destinadas a aprisionar o mais desatento dos visitantes.
Ao passearmos na rua devemos sempre observar a bela arquitectura dos seus edifícios de longe. Pois podemos ser sugados para o seu interior e quando damos por nós estamos levar no cu de um velho babado durante os próximos vinte anos.
Atenção com as saídas à noite. A noite austríaca pode ser deveras enganadora. Se saírem para ir beber um copo após um dia de bola e engatarem uma alta e deslumbrante loira tenham atenção. Se ela vos convidar para passarem a noite lá em casa digam sempre que preferem antes ir para o vosso hotel. Inventem uma desculpa qualquer. Ou que tem uma linda vista, que tem serviço de quartos muito bom ou o que quer que seja. Vão naquela a pensar que vão ter uma louca noite sexo com uma deslumbrante austríaca e acabam trancados num bunker a levar no cu de um velho babado durante os próximos vinte anos.
Nunca dêem o ar de frágil. Comportem-se sempre como um hooligan desordeiro. Embebedem-se, partam um vidro de uma montra e gritem obscenidades em inglês. É que ao menos assim salvam o vosso coiro e se alguém ficar mal visto são os ingleses. E como os ingleses têm a pior imagem possível não estragam a vida a ninguém. É que eles procuram sempre os mais frágeis. E se pensam que vocês são presa fácil não tarda muito estão a levar no cu de um velho babado durante os próximos vinte anos.
Eu peço desculpa por estar sempre a referir o velho babado mas dou muito valor à virgindade do meu cu e penso que não sou o único.
E pronto. Penso que com estas pequenas regras podem desfrutar de uns agradáveis dias e voltar a casa são e salvos em menos de vinte anos e com o cu inteiro. Boa semana e bom Euro.

 

publicado por Velho Jarreta às 01:17

07
Mai 08
É fundamental ser-se um revolucionário em jovem para se ser um grande social-democrata em adulto.”
Pacheco Pereira – historiador, professor universitário, comentador politico e sósia de Karl Marx
Ser-se comunista com 18 anos é sinal que se tem bom coração e que se quer lutar por um mundo melhor. Ser-se comunista quando se é adulto é ser-se estúpido.”
Pedro Paixão – escritor, publicitário, professor universitário e abstémio politico
 
Na minha mocidade eu era um “camarada”. Ou esquerdalho conforme preferirem e consoante a vossa orientação politica. Apesar de nunca ter tido filiação partidária, era um apoiante de todos os partidos de esquerda.
Como um guloso numa pastelaria, gostava dos bolos todos. Uns um pouco mais, outros um pouco menos. Mas os bolos eram todos bons. Sonhava com o dia em que todos os bolos se juntassem para provocar diabetes ao grande capital e todas as suas forças opressoras. Queques com Bolas de Berlim, Pasteis de Nata aliados a Mil Folhas. Todos unidos porque a pastelaria unida jamais será vencida. Como seria de prever enjoei de tanto doce. Já chego ao ponto de beber o café sem açúcar.
Mas sejamos directos e deixemo-nos de analogias. A direita nunca me enganou. Sempre vi que era composta de falsos moralismos, de hipocrisias e agarrada a valores retrógrados que em nada fazem progredir uma sociedade.
Agora a esquerda deu-me a volta durante muito tempo. Até porque tem uma imagem muito mais apelativa. Aparenta ser mais jovem, dinâmica, progressista e detentora da verdade. Claro que não é nada disso mas não podem pedir a um jovem de dezoito anos que saiba tudo.
Embora, se lhe perguntarem ele dirá que sabe quais são todos os problemas do mundo e que tem solução para todos eles. Mais tarde ir-se-á aperceber que se calhar não tem solução imediata para tudo mas mesmo assim procura resposta. E quando crescer vai ver que não sabe nada de nada e que se está bem a cagar para isso.
Hoje em dia sou aquilo que a esquerda chama um vendido e o que a direita chama um trepador social. E posso dizer que sou a adorar cada momento.
Vejo agora que o Maio de 68 trouxe tanta mudança como o Maio de 78, 88, 98 ou 2008. Não passou de um mito romântico para fazer com que a geração que não o viveu o tenho realmente vivido.
Que o 25 de Abril será tanto “para sempre” como foi o 5 de Outubro, o 1º de Novembro ou qualquer outra comemoração perdida no tempo.
Que as pessoas não estão adormecidas nem erradas, limitam-se a encarar a crua realidade das coisas e a tentarem safar-se o melhor que podem.
Não há bons nem maus. A não ser nas estórias de encantar.
Que há mais cores que o preto e o branco.
Que se não estamos com uns podemos também não estar com outros. O que devemos sempre é estar com nós próprios.
E que se procuram a verdade não será nem esquerda nem direita nem acima nem abaixo que vos dará a resposta. Também não olhem para mim porque não faço a mínima ideia e nem quero fazer. Se queres saber alguma coisa olha para ti próprio e pode ser que aprendas algo. Vais ver que não há melhor professor.
publicado por Velho Jarreta às 00:36

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