Março de 2006 - Janeiro de 2009

30
Mai 06

Claro que quero, o homem sabe tudo. Seja qual for o assunto a ser discutido, este gajo tem uma opinião formada e, pior ainda, tem sempre razão. Ou melhor, acha que tem, o que dá imenso jeito, porque mesmo dizendo a maior barbaridade à face da terra, se uma pessoa demonstrar convicção, sempre dá um ar credível , de quem percebe, de quem sabe, de quem domina. Mesmo que seja uma grande tanga, se for entoado de forma segura, como quem acaba de descobrir a cura para o cancro, há sempre alguém que acredita.

Aposto que jogar Trivial Pursuit com ele mão deve ter piada nenhuma. Quando alguém começa a ler " Quem foi, que no…", ele responde imediatamente Alexander II" acertando a resposta. Mas como é possível se nem acabaram de ler a pergunta? Simples. É o Nuno Rogeiro.

Mas qual a resposta para explicar tanto conhecimento numa só pessoa? Isso meus caros não sei. A única pessoa com a capacidade de responder a essa questão é o próprio. E não o estou a ver a divulgar o seu maior segredo.

Imaginem só que ele revelava a origem do seu talento, então ai todos poderíamos ser Nunos Rogeiros . Isso era de doidos. Todos sabíamos tudo e mais alguma coisa. Encontrávamos um amigo na rua e nem valia a pena perguntarmos "Então estás bom?". Para quê? Já sabíamos a resposta. E a outra pessoa também ficaria calada porque não tinha nada a perguntar, pois também saberia tudo.

Acabavam todas as perguntas, duvidas e questões. A única coisa que faríamos era afirmar. Sim afirmar, fosse lá o que fosse. Embora até isso não teria interesse, para quê afirmar se o outro já sabe.

Se todos nós tivéssemos o brilhantismo deste cavalheiro, a própria vida irse-ia alterar. Ninguém iria à escola pois já sabíamos tudo, só existia uma religião ou até mesmo nenhuma, acabavam os testes, os concursos de televisão, os dicionários, os partidos políticos , os comentadores de televisão, os cronistas de jornal e revista, o próprio Nuno Rogeiro, os analfabetos, os estúpidos , os cultos, as placas direccionais na auto-estrada, os manuais de instruções e tudo mais aquilo que eu não me lembro, mas que se fosse o Nuno Rogeiro lembrarme-ia de certeza.

Este sim é o verdadeiro anticristo , o homem que trará o fim dos dias, o fim do mundo, pelo menos aquele que conhecemos. Aposto que tem tatuado um 666 em alguma parte recôndita do corpo. Deve estar em letras góticas por cima da caixa torácica . De certeza, alguém alguma vez o viu em tronco nu? Aposto que não.

publicado por Velho Jarreta às 21:07

24
Mai 06

Quando eu era menino e moço, a minha mãe trabalhava em Lisboa, em pleno coração alfacinha, mesmo ao lado, do então moderníssimo Fórum Lisboa, nas Picoas. Era, como qualquer edifício estatal dos anos 80, uma mistura de edifico histórico e prédio devoluto. Após subir umas escadas de madeira, bem velhas por sinal, com aquele cheiro característico e com uma luz forte e viva ao estilo de um bunker londrino em plena II Guerra Mundial, entravamos num apartamento adaptado a escritórios. Logo à esquerda um longo corredor levava-nos à secção da minha mãe, que era mesmo lá ao fundo. Percorríamos esse espaço, iluminado por luzes florescentes , ao som de "Bom dia!" e "Ai estás tão crescido" e todos os outros lugares comuns que este tipo de situações tinha. A secção da minha mãe era a única que tinha um toque mais humano, não por ser a da minha mãe, mas por ela e as outras duas colegas, que partilhavam este espaço, encherem uma parede inteira com postais das mais variadas partes do mundo, como Santarém , Aveiro e as termas do Luso. Mas aquilo mais me ficou na memória foi uma pequena fotocopia , colada na parede, situada do lado direito da sala, de forma discreta, que dizia "Não é preciso ser-se doido para trabalhar aqui mas ajuda muito.".

Há frases ou expressões que nos marcam e esta, sem dúvida, sempre me fascinou. Aquilo que parecia pura e simplesmente uma graça aplicada aquele local de trabalho, é nada mais nada menos que uma forma de aguentar a vida todos os dias, seja lá onde for.

Pensem bem, quantas coisas vocês acham que não fazem sentido nenhum? Parece que foram feitas apenas para doidos as entenderem, e apesar disso têm de ser feitas e vividas por todos, mais ou menos loucos, consoante a sorte e o karma de cada um.

Jesus Cristo, que segundo dizem nunca tirou um curso superior nem passou a primeira eliminatória do"Quem quer ser milionário?", tinha no entanto um comentário muito bom quando via muito disparate à sua volta. Esse comentário era Perdoai-lhes senhor que eles não sabem o que fazem.". Aposto que na sua curta vida o repetiu muitas vezes.

Há também um velho ditado popular que diz que "De médico e louco todos temos um pouco.". É verdade sem dúvida nenhuma, e muitas vezes é nos pensamentos e acções mais estúpidos que ocorrem os acontecimentos mais brilhantes. Aposto que já vos aconteceu a todos, ter feito algo que é uma merda tão grande, que nem sabemos para que lado nos havemos de virar, e no final ainda acabou por compensar.

Tudo isto é muito parvo e parece não ter sentido nenhum, mas no fundo tem lógica. Não faço a mínima ideia qual, só espero que um dia algum louco me saiba dar uma resposta ou que o demente que escreve este texto chegue a alguma conclusão.

publicado por Velho Jarreta às 02:15

16
Mai 06

Steven Spielberg disse um dia que a época que mais o fascinava eram os anos 30 e 40 do século XX. É um pouco obvio, se prestarmos atenção ao numero de filmes, sobre aquele período , que ele realizou ou produziu. "Império Do Sol", "A Lista de Schindler " e os vários "Indiana Jones " são alguns exemplos disso. Assim já posso dizer que eu e o conceituado realizador temos algo em comum, já que nunca tive jeito para a realização e acho que usar barba durante toda a vida deve ser cansativo à brava, especialmente no Verão ou sempre que se come caldo verde.

Foi um período altamente intenso onde havia algo em que lutar, acreditar ou pensar, quer estivesse certo ou errado. Onde a necessidade de sobrevivência fez criar dentro de todos um espírito de luta. Esta era criou lutadores, homens de barba rija.

Mas tristezas e amarguras à parte, é incrível como os tempos mudaram.

Alguem consegue imaginar o Frank Sinatra e o Nat King Cole no ginasio a fazer duas horas de bicicleta, logo seguidas de mais 43 minutos de passadeira, tudo isto ao som da Radio Capital? Qual quê, um homem naquela altura fazia exercício a malhar garrafas de Whisky e a comer prostitutas carregadas de sifilis e gonorreia. Isso sim era macheza .

Não é como hoje em dia, em que para uma mulher reparar em nós, temos de usar a linha completa de produtos da Yves Rocher e suar que nem uns porcos num apartamento em Miraflores, com vista para a A5 , a que ainda por cima têm a lata de chamar heath club . Onde é que, estar fechado num prédio a 30 km de qualquer vestígio de ar puro pode significar saúde ? Quando o Humphrey Bogart foi para África fazer, o filme, "Rainha Africana", só ele e o realizador John Huston não ficaram doentes, devido à fraca qualidade da agua. Porquê? Porque nunca beberam agua durante todo o tempo que lá estiveram a filmar. Lá está. Ficaram cheios de saúde e não precisaram de ginásio nenhum.

De todas as personalidades deste período aquela que sempre mais me fascinou foi Winston Churchill. Estadista e primeiro-ministro inglês durante a II Guerra Mundial, pertenceu a uma raça de políticos que já não existe. Frontais, directos, incoerentes e acima de tudo, cheios de defeitos. Hoje em dia o que temos? Tony Blair ou José Sócrates que, apesar de eu não desgostar de nenhum, parecem mais robôs com aparência de seres humanos do que gente real. Limpos, imaculados, sem falhas, quase que virginais. E ninguém é assim a não ser que queira esconder algo.

publicado por Velho Jarreta às 21:04

09
Mai 06

Neste país o sucesso sempre foi algo que devemos esconder de todos, como se fosse uma perversão sexual ou um crime cometido. Quando perguntam, a um qualquer vendedor ou dono de uma loja, como vai o negocio, a resposta é sempre a mesma. Sai sempre qualquer coisa do género "Muito mal, o ano passado já foi difícil , mas este ainda está pior" ou então o clássico "Ai menina nem me diga nada. Quase nem dá para comer.". Os comentários são sempre os mesmos nem que estejam a vender água, no meio de Beja em pleno Verão, ou bandeirinhas de Portugal na altura do Euro.

A única altura em que o tuga fica contente é quando o seu clube futebol ganha qualquer coisa, seja lá aquilo que for. Quando isso acontece tudo é belo e lindo, e se este ano foi bom, para o ano será ainda melhor.

Há uma senhora, lá da minha terra, que diz que o dinheiro não traz felicidade mas tira os nervos todos. Em parte tem razão, realmente as preocupações desaparecem, mas será que não traz felicidade? Uma coisa eu sei, ser pobre não dá alegria nenhuma . Todos nós já passámos pela bela situação de não ter um tusto nem para beber uma bica e não me lembro de ver alguém feliz com isso. "Ai que bom. Estou teso que nem um carapau." É daquelas expressões que só podem ter um tom irónico.

"Morreu de cancro, coitada. Era rica, mas o dinheiro não lhe deu para comprar a saúde .". E depois? Se fosse pobre o tumor evaporava? Claro que não. Até parece que é um orgulho dizer que se sofre. Que nos fartamos de trabalhar, sempre mais do que qualquer outro ser humano, e que a nossa vida é pior que a dos outros.

É isso e dizer que uma pessoa pobre é humilde. Mas qual humilde?!? Sabem lá bem se é humilde, nunca lhe deram dinheiro suficiente para podermos apreciarmos essa qualidade. Outra. "É um trabalho mal pago mas é honesto.". Ficam já a saber uma coisa, se alguém vos disser que tem um trabalho honesto é porque tem um trabalho de merda . Até parece que se um gajo tem dinheiro é porque andou a roubar alguém .

NOTA: Se acabas-te de ler a ultima afirmação e pensas-te "É evidente que andaram a roubar, pois tá claro!", és claramente um cidadão de nacionalidade portuguesa e tens uma forte convicção de que este país daqui a uns anos está ao nível da Etiópia.

Mas como vive um povo que se está sempre a queixar de tudo? Simples, como nós. É estranho sem duvida e nem dá bem para explicar mas todos sabemos como é. Até porque esta gente não é pessimista , é sim fatalista, todos acreditamos, lá no fundo que as coisas podem correr bem, mas também sabemos que, no fim, o nosso destino nos irá destruir todos os sonhos.

Eu não partilho deste sentimento. Não tenho gosto nenhum em dizer que vou mal, nem que amanhã vai ser pior que hoje. Até porque se for pior que hoje, puta que pariu para amanhã. Não quero, não gosto e não vou.

publicado por Velho Jarreta às 21:11

02
Mai 06

Estou chateado, não é bem chateado, é mais aborrecido. É o estado de alma em que nos sentimos com actividade de uma tartaruga e o conteúdo de um livro em branco. Não há rigorosamente nada que nos desperte. Podia-nos aparecer a Soraia Chaves, em pleno período de ovulação sedenta de sexo, a gritar o nosso nome, que a única coisa que nos apraz dizer é "Eh pá tem mais calma, fala mais baixo tá bem pronto, se tem mesmo de ser vamos lá tratar disso.". O pior é que quando nos encontramos assim, em estado vegetativo, temos a certeza que nem uma gorda, assim tipo cachalote, nos vem perguntar as horas.

Se alguém aparece, com aquele ar sorridente a perguntar " Então como é que isso vai?" só nos apetece dizer "Olha uma merda .". Mas é sempre melhor não ir por aí, porque senão somos logo bombardeados com um questionário exaustivo, que faria inveja a qualquer policia politica de um regime ditatorial, e aí temos ainda mais vontade de dizer "Olha vai mas é à merda !". Claro que se fazemos isso ficamos mal vistos. Mas não dá para ver que não quero conversas! Quando assim estamos, devia aparecer um sinal qualquer tipo bolinha vermelha da televisão, como que a avisar que entrar em contacto prolongando connosco pode chocar as pessoas mais sensíveis . Provavelmente o melhor é usar uma t-shirt com algo do género "Não incomodar por favor, estou com a neura.".

Nestas alturas o tempo parece eterno, sexta-feira passada é o equivalente às nossas memórias de infância . Pouco nos interessa se está quente ou frio, se chove ou faz sol e se o Cláudio Ramos é gay ou não. Aquilo que realmente queremos é que aconteça algo. No fundo sabemos que vai passar, mas que é chato é.

publicado por Velho Jarreta às 21:31

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