Março de 2006 - Janeiro de 2009

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Fev 07

Era eu novo, muito mais novo, e existiam na minha rua duas floristas. Já faliram, como seria de esperar, pois ter um negócio que funciona somente uma vez por ano nunca foi uma opção rentável seja lá em que ramo for. Estranho? Eu explico, tenham calma, vão-se aperceber que até faz muito sentido. Começo por vos descrever os estabelecimentos comerciais de que estou a falar.

Com uma afluência média ao nível dos estádios do Beira-Mar e União de Leiria em dia de jogo, o cenário era desolador. Ramalhetes expostos na montra, que só não ganhavam pó porque a curta vida dos artigos dispostos pelo vidro fora assim não o permitia. A empregada à porta a falar com os vizinhos para não morrer de tédio e uma actividade comercial de fazer inveja a qualquer multinacional. Enfim, parecia uma loja de aquecedores no centro de Maputo.

Este cenário era constante, estivesse frio ou calor, chovesse ou o sol raia-se . Manhã, tarde ou noite, era igual, não se passava porra nenhuma. Até que, uma vez por ano, chegava o dia que permitia a sobrevivência do estabelecimento, pelo menos até ao ano que vem. O dia em que as vendas eram 274967345096% superiores aos restantes dias úteis , ou melhor inúteis . Em que a empregada nem tempo tinha de ir à porta, à casa-de-banho , ao telefone, ao café ou a lado nenhum. Em que a tesoura tinha mais utilidade que fazer recortes de receitas na TvGuia . Alegrem-se comerciantes, chegou o salvador. Não é Jesus Cristo nem D.Sebastião , nem tão pouco o Pai Natal ou o Rambo era sim o S.Valentim .

O dia até começava calmo, mas com o passar das horas as coisas iam aquecendo. Até que, pelo final da tarde, as vendas atingiam o seu zénite . A caixa registadora não parava de funcionar, entrava tanto dinheiro que a pobre máquina até se engasgava. Filas imensas, uma longa espera para conseguir qualquer coisa. Sim qualquer coisa. A única coisa que eu ouvia eles pedirem era qualquer coisa. "Olhe arranje-me aí qualquer coisa s.f.f.". Fosse para a mulher, namorada, amante ou qualquer outro tipo de relacionamento. Durante muito anos pensei que "qualquer coisa" era outro nome para ramo de flores. É lógico, queria qualquer coisa e dão-nos flores, qualquer coisa são flores. É evidente Hermínia .

Nunca soube quem era tal fulano, o Valentim, mas devia ser lixado para a porrada. Tinha que ser, não é qualquer um que obriga tantos homens de barba rija a irem para casa carregados de flores após um dia de trabalho. Ou se calhar era um franzino vendedor de flores que se lembrou de criar uma brilhante estratégia de marketing para pelo menos uma vez por ano chegar ao final do dia e dizer que se fartou de trabalhar. É provável , bastante mesmo.

Nunca cheguei a saber quem era este homem que até foi santificado, o que sei é que já não há floristas na minha rua. Mas todos os anos, a 14 de Fevereiro, faça chuva, sol, frio ou calor esta mesma rua continua cheia de homens carregados de qualquer coisa.

publicado por Velho Jarreta às 00:04

comentário:
Pois é, aí é que te enganas. Elas nao trabalham só uma vez no ano, isso talvez possamos considerar que o S. Valentim será o subsidio de férias delas, mas tb têm o subsidio de Natal, esqueceste-te do dia de finados, o dia dos que ca estiveram, foram e ate a data nao voltaram, podera, com aquela terra toda em cima nem o Hulk. Enfim foi um lapso, pk mesmo assim acho que elas se orientam melhor nesse dia, ate abrem filiais á porta do cemiterio. Sem mais argumentos: tenho dito
Hasta.
Tovarish a 14 de Fevereiro de 2007 às 17:33

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