Março de 2006 - Janeiro de 2009

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Out 08

Desde que Salazar abandonou a Presidência dos Concelho de Ministros à 40 anos atrás que a palavra crise é figura de relevância no vocabulário dos portugueses. Basta perguntar a qualquer comerciante como vai o negócio e resposta é invariavelmente a mesma. Que o ano passado já foi mau, que este está pior e que para o ano se não estiver a mendigar por uma côdea de pão bolorenta pode dar graças a Deus. É questão para perguntar como é que este país ainda se mantêm em funcionamento?

Pelo discurso corrente das mesas de café e reportagens televisivas, ao chegarmos a Elvas vindos por Badajoz, já à muito que se deveria encontrar um portão, encerrado a cadeado, com um aviso a informar que Portugal fechou por falência. Mas pelos vistos não. Continuamos por cá. E exactamente na mesma, com uma resmunguice crónica que parece não ter melhorias.

E todos sofremos com isto. Todos estamos mal, falidos, sem dinheiro para o que quer que seja. Nunca conheci ninguém que se considera-se rico. Já nem vou tão longe e exigir este impossível. Refraseando, nunca conheci sequer alguém que viva desafogadamente. Quer sobreviva com o ordenado mínimo ou com vencimentos que façam a família real saudita parecer uma cambada de miseráveis, ninguém se considera bem para levar, pelo menos, uma vida desafogada.

É que mesmo ganhando rios de dinheiro parece que ele se evapora como a cerveja na Queima das Fitas. E há desculpas para tudo. Tanto podem ser os impostos, as prestações do banco, o colégio dos putos, as idas às putas, as dividas a fornecedores, a queda da bolsa, a subida da bolsa, vício de jogo, o arranjo do carro, o preço do pão ou a cabra da minha ex-mulher que me levou tudo só porque me apanhou a ir às putas.

Mas afinal quem é que tem dinheiro? Se toda a gente se queixa, quem o sacana que está caladinho que nem um rato a um canto a encher o bandulho? Esse mesmo que compra os carros de topo de gama, as casas na Lapa com vista para o Tejo e os gelados Magnum Tempation? Esses mesmos, muita pequeninos que vêem naquela caixinha e que custam um euro e noventa. Aquela merda é mesmo boa mas pôrra. Dar dois euros para ter direito a um caganitozito daquele tamanho que vai em duas ou três dentadas é só para gente rica. Temptation, dizem eles. Se estás com tentações levas um Perna-de-Pau e já te podes dar por contente por não bateres no fundo e teres de comer um Mini-Milk.

Quem quer que seja que tenha dinheiro é um mestre na discrição. Um perito em disfarces, uma incógnita para todos aqueles que o rodeiam. Para todos os restantes mortais só resta procurar incessantemente o próximo euro como um agarrado procura uma grama de cavalo para lhe matar as dores. Grama essa que nunca é suficiente. De momento pode atenuar os nervos, servir o desejo do presente. Mas o desespero, esse mantém-se. Dia após dia, num ciclo sem fim de onde parece que ninguém tem saída. 

 

publicado por Velho Jarreta às 16:20

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