Março de 2006 - Janeiro de 2009

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Out 08

Nos anos setenta uma sitcom norte-americana de nome All In The Family atingiu um sucesso extraordinário. Conhecida em Portugal como “Uma Família às Direitas” esta série conseguiu como poucas retratar o sinal dos tempos. Abordou assuntos anteriormente considerados tabu, tais como a homossexualidade, o racismo, os direitos das mulheres, o porquê das calças à boca-de-sino e o aborto. Tornou-se um marco e estabeleceu uma forte ligação com os telespectadores que iria perdurar no tempo.

Baseado em histórias do quotidiano a acção centrava-se na casa de numa família suburbana de classe média. Eram quatro as personagens principais. Gloria e o seu marido Michael Stivic, representavam a juventude e as ideias liberais e utópicas da era. Edith, a dona de casa de voz esganiçada era a típica mulher que conhecia muito pouco do mundo mas muito do seu mundo. Aparentando ser uma perfeita idiota revelava-se quase sempre como a voz da ponderação e do bom senso. Mas seria o quarto interveniente que viria a ser a face deste programa. Considerado por muitos críticos e espectadores comuns como a melhor personagem da história da televisão norte-americana, minhas senhoras e meus senhores, Archie Bunker.

Interpretado por Carrol O'Connor, esta personificação do retrógrado e reaccionário trabalhador de classe média que parece ter certezas e respostas para tudo tornou-se o mais adorado grunho que há memória. E é aí que reside a primeira e grande questão. Porque gostávamos tanto de Archie Bunker? Ele era a verdadeira besta. Um homem que tratava tudo e todos abaixo de cão. Qualquer pessoa que pensasse, agisse ou se apresentasse de outra forma a que não fosse a sua era imediatamente criticada por ele. Tinha uma desconfiança e consequente antipatia de tudo o que era diferente. Mas no fundo toda a gente nutria uma profunda empatia com aquela personagem. Bastava a sua presença para que o sorriso que ele nunca tinha surgisse imediatamente na face de qualquer espectador. Inclusive dos próprios grupos sociais que ele tanto criticava.

A resposta está bem dentro de nós. No fundo todos temos um pouco de Archie Bunker no nosso ser. Todos temos preconceitos e ideias pré-concebidas sobre outras pessoas. Quer seja pela cor, raça, religião, etnia, clube desportivo, orientação sexual, filiação politica ou pela opinião que têm sobre a qual a melhor receita de bacalhau. E isso não vai mudar, mas nunca mesmo. Sempre foi e sempre será assim.

Daí o carácter intemporal de Archie bunker. Todos já tivemos momentos na vida em que quisemos mandar tudo e todos à fava e descarregar sobre o primeiro que aparece todas as raivas e frustrações da nossa vida, como se aquela pessoa fosse a responsável por tudo aquilo de mau que nos aconteceu. Desde o dia que nascemos até aquele preciso momento. Para muita gente não foi uma vez que reagiram assim, é mais uma forma de estar na vida, fazem deste comportamento a sua maneira de estar. E são habitualmente esses que juram a pés juntos que a culpa é sempre dos outros e que de Archie Bunker nada têm.

 

publicado por Velho Jarreta às 12:26

2 comentários:
Boas verdades. Eu identifico-me bastante com o Archie, sou resmungão até dizer chega, consigo ser uma besta e tenho sempre montes de ideias pré-concebidas.
O que vale é que como eu há bastantes por aí...
Piri a 24 de Outubro de 2008 às 11:01

Hoje acordei a pensar no Archie Bunker. Isso e na multa de 250€ por pagar... Pois bem, acho que, por momentos, compreendi a perfeita revolta interior deste Senhor.

A vontade de desancar em todos os que me apareçam à frente a perguntar "olá, como está, passou bem?", a repulsa que sinto pelo sistema, o café merdoso do Sr Joaquim pela manhã, o trajecto do 711... tudo isto desperta o pequeno Archie Bunker adormecido cá dentro, e quando isso acontece parece que qualquer velho de tasca é um mero menino comparado com esta faceta obscura.

Assertivo e Dogmático como há poucos, assume uma postura de indiferença sobre tudo o que desconhece e preconceitos sobre todo o universo e suas criaturas.
O Archie Bunker em nós é aquele que aparece naquela altura fudida do dia para responder "Oh meu anormal, mas táva a falar ctg, meu filha de porca desdentada, vaitamazetapocaralho!"...
Suricata a 24 de Outubro de 2008 às 13:21

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