Março de 2006 - Janeiro de 2009

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Mar 08
  Quando eu era miúdo só se fazia uma única coisa. Jogar à bola. Nada alterava a nossa rotina diária. Muito menos o tempo. Inverno, intempéries e ventos ciclónicos! Onde tanto fazia estar a cair uma “molha tolos” como tsunamis que pudessem arrastar quarteirões inteiros. Jogava-se e mais nada. Verão, quarenta escaldantes graus. Ali à torreira do sol, completamente desidratados com tumores benignos a brotarem-nos da pele. E nós a corrermos (ou melhor a arrastarmo-nos) por uma praceta deserta aos pontapés a uma bola de borracha cor-de-laranja como se as nossas vidas dependessem disso.
Não haviam ringues nem campos com medidas regulamentares. Os campos de futebol suburbanos caracterizam-se por uma originalidade de formas e geometrias que em nada se assemelham a um rectângulo dedicado à prática futebolística. Como o campo em forma de guitarra, em que de um dos lados se faziam ataques ao estilo futebol onze com cruzamentos largos e desmarcações em profundidade, e no outro, onde parecia estarmos a jogar no guarda-fatos da nossa avó. Mas ao menos era direito. Outros campos apresentavam inclinações acentuadas de tal forma que quando se atacava para um lado parecia a subida da Senhora da Graça e para o outro dava a sensação que estávamos a fazer bungee jumping mas sem elástico e a dar pontapés numa bola.
Para além das estranhas formas do campo, o piso também não era flor que se cheirasse. O alcatrão é um clássico. Ao cairmos nele ficamos com aquela sensação de quem acabou de entrar num ringue com o Mike Tyson . Até porque é bem provável que fiques sem alguma parte do teu corpo. Muita sorte será se for só a orelha.
Havia também espaços em que o gramado se alterava consoante a época do ano. Ou era uma areia com gravilha que volta e meia estavas com os cornos no meio do chão ou era um empedrado semelhante à superfície lunar.
Com a monção vinha a lama, o favorito das mães. Num abrir e fechar de olhos tornava umas calças de bombazina acabadas de passar a ferro numa manta de retalhos ensopada em merda .
O equipamento desportivo era bastante simples, embora variado. Consistia essencialmente na roupa que nos davam no Natal. Escolhida aleatoriamente pelas nossas mães, com o intuito de nos deixar mais bonitos. O que nunca acontecia. Primeiro, mesmo que haja um cuidado na indumentária, o facto de andar todo suado, com o nariz repleto de ranho, a correr atrás de uma bola, leva a um desmazelo inevitável. E segundo, estávamos nos anos oitenta, estar ridículo era a moda. 
Tudo isto proporcionava uma ampla gama de escolhas. Desde o pullover aos losangos, passando pelas calças de fato de treino, até à camisa em xadrez, cada jogador tinha o seu próprio estilo. Ou melhor a falta dele. O que dava ao jogo uma expressão individual única.
As boas bolas de futebol eram as de catechu. O que raio é catechu? Todos falavam do catechu come se fosse o mais comum dos materiais mas nunca ninguém soube o que realmente era. Só se sabia que boa bola era de catechu. Será que era um bicho? Se era, provavelmente devem-se ter morto milhares de catechus pequeninos para lhes tirar a pele, levando assim à extinção da espécie. Ou seria uma planta? Que desse frutos chamados catechu que soubessem a borracha, e devido a isso não servissem nem para sumo nem para centro de mesa, logo seriam aproveitados para fazer bolas de futebol. Vamos antes pensar assim. É melhor e saímos de consciência tranquila. Até porque a ideia de milhares de catechus estropiados não é muito agradável.
publicado por Velho Jarreta às 00:44

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