Março de 2006 - Janeiro de 2009

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Mar 08
A vaca é um bicho desinteressante. Não sei se alguma vez perderam tempo a observar de forma particularmente atenta algum exemplar do gado bovino, mas se o fizeram, certamente considerarão esse mesmo tempo irreversivelmente perdido.
Observar uma vaca é o mesmo que assistir a um simpósio sobre reestruturações no sector educativo. Há uma variedade enorme de moscas que apesar de voos distintos vão todas aterrar na mesma pista. Que não é mais que um monte de merda que brota de um ânus fétido e volumoso. Para além de termos de suportar este cenário desagradável, ficamos com tantas respostas às questões que tínhamos como quando entrámos. A vaca jamais deixará de o ser, as moscas continuarão a fazer o seu degradante papel, e o monte de merda torna-se ainda mais grotesco.
Não entendo como é que alguém pode gostar de vacas. Se, por algum acaso que agora não me ocorre, eu tivesse de enumerar o meu top-ten de bichos favoritos, não vejo como haveria forma de incluir a vaca nesse pote. Há tanto bicho engraçado. O cão, o gato, o cavalo, o tigre, a raposa, o elefante. Sim, o elefante. Não me digam que um elefante não é muito mais castiço que o raio de uma vaca.
É que se formos a ver bem, a vaca, não passa de um ruminante lento que possui uma cauda para enxotar moscas. Moscas essas que atrai devido ao mau hábito de deixar um rasto de bosta por onde quer que passe. Tudo isto, convêm não esquecer, a um ritmo pardacento fazendo lembrar um velho com soltura que se esqueceu de vestir uma fralda.
Há algo de decadente numa vaca. O ar cansado, de quem não está feliz com a vida que leva. As manchas na pele, que mais parecem sinal de uma doença grave no fígado. Quem não conhecer, dirá que todas elas sofrem de cirrose hepática. A obesidade mórbida. E claro, a indesejável companhia das moscas, que mais parecem abutres em miniatura à espera do momento fatal para assim se poderem apoderar dos seus restos mortais.
Então porque será que um bicho tão desinteressante é sagrado na Índia? Só à pouco tempo o descobri. Não se trata de nenhuma superstição ancestral ou restrições exigidas pela A.S.A.E . Não tem nada de estranho e até é bastante lógico. Deve-se ao seguinte. Se alguma mãe não tiver leite para amamentar as suas crianças, a quem terá de recorrer? Resposta obvia, à vaca. É esta a explicação. A vaca é fonte de vida.
Pois. Isto é tudo muito bonito mas os tempos mudaram. As vacas é que não. Por isso é que volta e meia lá descarrila um comboio e vão quatrocentos indianos para o galheiro . Tudo isto porque sua excelência decidiu fazer uma sesta na linha ferroviária entre Calcutá e Bombaim. E o maquinista em vez de ter juízo e pensar que se quiser leite basta-lhe ir ao Pingo Doce lá do sítio e trazer uma palete, o que faz? Decide travar a fundo o seu Alfa pendular, que no fundo não passa de tractor assente sobre carris herdado do colonialismo inglês, provocando uma catástrofe. E fica tudo muito contente porque apesar das centenas de corpos trucidados, a puta da vaca contínua de boa saúde a largar bostas e a enxotar moscas. Que bicho mais parvo.
publicado por Velho Jarreta às 01:31

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