Março de 2006 - Janeiro de 2009

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Jan 08
O acto de resmungar é tão lusitano como comer bacalhau, gostar de bola ou vestir fato de treino ao domingo. E é único no mundo. Os outros indignam-se, discutem, arreliam-se, revoltam-se, queixam-se e exaltam-se. Nós resmungamos. Demarca-se de todos os outros porque não envolve qualquer tipo de consequências. O verdadeiro resmungão resmunga, mas não faz rigorosamente mais nada, fica-se sempre por aí. Devemos resmungar mas jamais fazer algo para mudar as coisas. Senão deixa de ser resmungar.
O alvo preferencial da avalanche diária da resmunguice é quem quer que tenha poder. Seja lá quem for que mande. Desde o director de núcleo até ao primeiro-ministro. Percorrendo toda a cadeira hierárquica, todos sabemos que nenhum presta, que são detentores de toda a culpa e que se não fossem eles é que isto ia para a frente. Como poderia ser de outra forma? Até eles próprios resmungam e se não é com quem está acima é com quem está abaixo ou de lado. Ou em que sitio for mas que resmungam resmungam.
Um gajo que não resmungue com tudo e com todos só pode ser um pánhonha. Um fraco sem qualquer relevância para o futuro da humanidade. Temos de resmungar. Nem que seja porque se toda a gente resmunga também nós temos esse direito. Direito e, já agora obrigação. Adaptando Descartes, se resmungo, logo existo. Mas será mesmo assim? Pensando bem, talvez não, muito antes pelo contrário. Estamos sim a negar a nossa existência. Porque existir implica consequências e acções e resmungar é tudo menos isso.
Ao resmungar estamos a atribuir toda a responsabilidade aos outros, nunca a nós próprios. Não fazemos nada e porquê? Porque cá no fundo sabemos que também temos culpas no cartório. Daí que resmungar, embora engane bem, é tudo menos ir para a frente. É sim acomodarmo-nos e aceitar a vida como ela é, ou melhor como achamos que é.
Mas resmunguem, só de vez em quando, mas façam-no. Faz parte da vida, especialmente da nossa. É como beber uns copos ou ter uma noite mal dormida. Não leva a lado nenhum, mas por vezes sabe bem. Não temos de mudar o mundo todos os dias, e muito provavelmente não o teremos de mudar nunca, ele muda sozinho. O mundo já é crescido que chegue para mudar quando bem lhe apetecer. Resmunguem como eu acabei de resmungar que sabe sempre bem. Não façam é disso modo de vida.
E ai de alguém que diga que não serve para nada. Claro que serve, é libertador. E é melhor que qualquer droga pois não dá efeitos secundários e pode ser tomado as vezes que se quiser que não vicia. É natural, parece vindo de uma herdade de agricultura biológica. E só faz sentido na companhia de outros e só por isso vale muito. É que querer resmungar e não ter ninguém para nos ouvir é o mais triste de tudo.
 

publicado por Velho Jarreta às 22:19

comentário:
Logo na primeira vez que visito o teu blog já tenho que vir dar opiniões.....
E quanto ao acto de resmungar, que tal o nosso tão habitual resmungar por tudo e por nada: se o chefe não aumenta o ordenado resmunga-se porque não somos aumentados e o gajo é um capitalista merdoso que só pensa em gastar dinheiro em carros topo de gama, férias em resorts da República Dominicana cheios de americanos gordos e noitadas em qualquer bar de alterne rodeado de umas Carolinas Salgado provenientes dos países de leste. Comentário habitual do tuga empregado: ao menos que houvesse 1% para compensar o aumento do pão!!
Se o chefe resolve acompanhar a taxa de inflação e aumenta o tuga em 2.8% lá estamos nós a resmungar com o respectivo: "Se ele metesse o aumento pelo cu acima fazia melhor figura! Para que raio nos servem 2.8% de aumento. Nem para comer um Happy Meal no Mac cá do Bairro quanto mais para ir passar fins de ano ao Casino do Estoril!!!!".
E aplica-se em tudo na nossa vida desde trabalho a família passando por amigos, futebol e afins...
E faça-se o que se fizer há sempre direito a resmungar....
Beijos da "prima"

Cristina
Cristina Alves a 4 de Janeiro de 2008 às 23:19

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